Arquivo mensais:outubro 2016

Reflexão de João Ataíde Santana

João Ataíde Santana¹

Só para refletir, tendo como base um documento histórico de Pierre-Joseph Proudhon (1840).

Aprendemos muito com os documentos históricos, muitas das atitudes de ontem são, também, atitudes dos dias de hoje. A receita pode ser a mesma ─ a emancipação das classes à margem de tudo.

Amigos e irmãos quilombolas, na proporção em que a sociedade se torna esclarecida, diminui a autoridade (real) (…) aos poucos, a experiência produz hábitos, que se desenvolvem em costumes. Então os costumes são formulados em conceitos, enunciados em princípios, em suma, transformados em leis que o próprio rei, a lei viva, terá de obedecer. Vem o tempo em que os costumes e as leis são tão numerosos que a vontade do “príncipe”, por assim dizer, é submetida à vontade pública. E, ao tomar a carona, o príncipe é obrigado a jurar que governará conforme os costumes e os usos estabelecidos; que ele é o poder executivo de uma sociedade onde as leis são feitas independentes dele.

Laissez Faire, Laissez Passez, Le monde va de Lui-même (deixa estar, deixe passar, o mundo caminha por si), não, não devemos nem podemos, como negros quilombolas emancipados e empoderados, deixar o mundo caminhar por si só, elegemos nossos representantes, queremos ascensão coletiva por meio do voto, o príncipe compra, o príncipe avança, não esqueçamos que temos a maioria, somos a maioria. Dessa forma, caminhamos a passos longos pela autonomia de nossa liberdade, mostrando como a história se repete. A exemplo da cidadania em Atenas, onde era dada a oportunidade de participação política a todos os que pertenciam a categoria de “cidadão”, tal qual as concepções vigentes de cidadania na França moderna.

A ideia de cidadania foi construída ao longo do tempo, história em diferentes épocas e sociedades, em razão dos embates entre indivíduos, grupos, classes e instituições que compõem o corpo social, então, somos quilombolas, somos cidadãos, temos e somos os donos dos nossos destinos, fazemos parte e estamos no centro da discussão, não chegaremos a lugar algum se estivermos isolados.

Por fim, digo que o único caminho para essa tal liberdade é o nós, por nós mesmos, negros intelectuais de todo lugar uni-vos, uni-vos, e, adentremos os quilombos do Brasil, não como capitães do mato, sim como zumbi, como Abdias Nascimento, como Oliveira Oliveira, não entremos como massa de manobra, sim como esclarecedores e formadores de nosso povo quilombola.

Alter do Chão

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Software livre, resistência e saberes ancestrais em Alter do Chão

Software livre, novdsc09447as tecnologias e saberes ancestrais foram os temas que permearam o segundo encontro do projeto Mídia dos Povos da AMARC Brasil. As atividades foram realizadas entre os dias 21 e 25 de setembro em Alter do Chão, no Pará, reunindo diferentes etnias indígenas, representantes de movimentos sociais e coletivos de mídia da Amazônia brasileira. O grupo foi recebido no Ponto de Cultura Oca onde também funciona a Escola Cajueiro do Grupo Vila Viva. Foi lá que os participantes se instalaram durante os cinco dias.

A diversidade era marcante entre entre os presentes: quilombolas do Quilombo do Curiaú, localizado em Macapá, no Amapá, – local onde ocorreu o primeiro encontro – representantes indígenas das etnias Munduruku, Koukama, Miranha e Kumaruara; comunicadores das comunidades ribeirinhas de Juruti Velho e Mojuí dos Campos, no Pará; ativistas do coletivo Puraqué, de Santarém; arte-educadores de Belém e um midiativista de São Luis, no Maranhão.

Software livres são programas abertos e gratuitos. Além de garantir o acesso mais democrático dos programas, o uso deste tipo de software garante que o usuário não precise pedir qualquer permissão ou se comprometer com licenças proprietárias restritivas. O projeto Mídia dos Povos acredita que estimular o uso deste tipo de software junto às comunidades e projetos de mídia alternativos, comunitários e livres, permite a maior liberdade e autonomia aos mesmos.dsc_0210

Aline Freitas, programadora e ativista de software livre de São Paulo e Nils Brock, midiativista e cooperante internacional da AMARC Brasil, foram responsáveis por introduzir as técnicas básicas de software livre, como aprender a instalar Ubuntu nos computadores e brincar um pouco com a enigmáticas (pra muitos!) linguagem da programação.

dsc09460Todos os dias, antes de iniciar as atividades, os participantes que dormiam juntos em um redário, acordavam ainda de madrugada para ver o sol nascer na Praia do Amor, uma ilha localizada em frente à praça central de Alter do Chão. Depois de renovados em seu banho matinal no Tapajós, seguiam para o café da manhã. Logo antes de iniciar a primeira oficina, aproveitavam a presença de xamãs, pajés e sacerdotes de diferentes etnias para realizar um ritual de abertura. Renovados e encorajados, seguiam para as práticas.

A apresentação de cada participante, feita através da escolha de um objeto para falar sobre si mesmo tomou bastante tempo do primeiro dia, já que cada pessoa ali presente trazia um universo de experiências, saberes e expectativas para compartilhar com todos.

O primeiro dia foi inteiramente dedicado a instalação do sistema Ubuntu nos computadores dos participantes. Quem não havia levado computador, pode fazer a experiência numa das máquinas do telecentro do Ponto de Cultura Oca que abrigou o encontro. Muitos dos computadores estavam sem uso devido a carência de manutenção. Diante disso, Tarcísio Silva, professor e ativista do coletivo Puraqué, que é o produtor local do encontro, propôs que durante as oficinas, abrissem os computadores para aprender um pouco sobre a manutenção e limpeza básica dos mesmos. Ele mostrou como esse procedimento podia ser feito com simplicidade: “com uma chave de fenda e um pincel macio é possível salvar um computador”. Esse também foi um exercício de metareciclagem, já que foram usadas peças de outras máquinas que não poderiam ser recuperadas para consertar alguns computadores. Ao final do encontro cinco computadores foram restaurados e agora podem voltar a serem usados no espaço.

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O segundo dia foi dedicado a troca de conhecimentos e saberes entre os participantes. Os Grupos de Trabalho haviam sido decididos no dia anterior a partir de um mapa mental elaborado durante as falas dos participantes:

GT1. Uso de Saberes Ancestrais; Realidade Cultural Munduruku e Dança, História, Pintura e Experiência de ser Xamã, Payun e/ou Babalossay/ com Azazel Koukama, Jonas Duarte e Milson dos Santos;

GT 2. Metareciclagem e educomunicação; com Tarcísio Silva e Rayane do Coletivo Puraquê;

GT 3. Mídia e Meios de Comunicação nas Comunidades; Ideias de como Trabalhar Comunicação nas Comunidades e Ferramentas de Comunicação através do Hip Hop/ com Rejane Souza e João Ataíde;

GT 4. Experiências de Luta em Defesa das Comunidades; Experiência do Grupo de Mulheres/ com Eduardo Henrique, Marunha Munduruku, Rayane

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Na manhã do terceiro dia, Milson dos Sp1019779antos, ativista do movimento negro do Maranhão, apresentou a plataforma de autocartografia Lagbaye Lyika, uma autocartografia tático ancestral, que permite o envio de denúncias de situações de violência, mapeando áreas de riscos para alertar pessoas e organizações sociais, principalmente de matriz africana. Para mostrar seu funcionamento, Mil convidou o participante Josivan Souza, de Jururti Velho, Pará, para inserir denúncias sobre os impactos ambientais e violações de direitos provocados pela multinacional Alcoa ao explorar bauxita e outros minérios na região de sua comunidade.

A parte da tarde foi dedicada a desdsc_0356mistificação da linguagem da programação que segundo a nossa facilitadora Aline Freitas “não é um bicho de sete cabeças”. Ela explicou que se trata de um exercício de tradução da linguagem humana para a linguagem da máquina. E para isso, propôs exercícios com a linguagem conhecida como Pynthon. Outro exercício proposto foi simular o clássico jogo pedra, papel e tesoura com a linguagem binária da programação. O dia foi encerrado na beira do rio Tapajós quando o xamã Azazel Koukama realizou um ritual de louvor ao pôr do sol e os participantes consagraram a bebida sagrada caiçuma, preparada por ele durante o dia.

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A parte da manhã do quinto dia foi dedicado à arte junto dos nossos arte-educadores de Belém do Pará. Os participantes se dividiram em dois grupos, udsc09313ns foram trabalhar com grafite junto com o grafiteiro Marcelo Silva, e outros produziram um música na oficina oferecida por Augustinho Hijo.

dsc09553Marcelo já havia iniciado alguns desenhos nas paredes do espaço cultural e deixou que os participantes finalizassem as obras. As portas dos banheiros também foram grafitadas com lindas flores. E não apenas computadores que foram reciclados. Além das paredes das salas de aula da OCA, Marcelo grafitou uma kombi sucateada que estava “jogada” na esquina do quarteirão da escola Oca. A grafitagem agradou a dona da kombi que estava planejando joga-la no lixão. Ainda disse ao artista que a levaria para a frente de sua casa.

Agostinho fez rápidas explicações sobre notas musicais e como combiná-las com ritmos e poesia. O desafio colocado por Agostinho aos participantes foi de, coletivamente, tornar poesia os sentimentos, as emoções e o conhecimento que estava sendo compartilhado durante todo o encontro.

dsc09206O trabalho foi desenvolvido em duas etapas: enquanto Agostinho acertava alguns acordes, afinava a guitarra e ajustava os equipamentos, os participantes conversaram sobre o que queriam transmitir. As palavras chaves foram listadas: sabedoria ancestral, terra, clamor, rio, sangue, indígenas, negros, mãe terra e mãe d´água, preservação, riquezas, Amazônia, respeito, meio ambiente, vida. E foi assim que surgiu essa linda composição (clique aqui pra cessar o vídeo)

Parana, Áwira, Tuyuka, Paranawatsu

Se sou peixe, o que comer

Se sou planta, o que beber

Em qual rio vou nadar (bis)

Se a terra clama e chora

O rio sangra a toda hora

Vamos despertar (bis)

# Do lago verde ao Tapajós

O Amazonas, corijós

Erês e cuiantãs (bis)

Da ganância vem o homem

Dinheiro que não se come

Já dizia os anciões

O canto da mãe d´água

Que veste oxum, que veste Yara

Pela flora preservada

Das riquezas maltratadas

Da pureza dessa água

Respeitem, aqui é nossa casa.

dsc_0295À tarde foi o momento de retornar aos computadores na oficina sobre segurança na internet, novamente com Aline. Ela alertou para a falta de privacidade e a forma como grandes empresas como o Google e Facebook lucram a partir do banco de dados das informações que fornecemos ao usarmos seus serviços. Além de sermos constantemente rastreados também somos bombardeados diariamente com a publicidade. Por isso, ela nos forneceu uma lista de programas, softwares, e-mails e sites alternativos que possibilitam o uso mais seguro dos serviços online. Um exemplo é o duckduckgo, buscador alternativo ao google, que não registra as informações dos usuários. O dia foi novamente encerrado ao pôr do sol do rio Tapajós.

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No último dia foi realizada a dinâmica Alfabeto do Futuro, com a coordenadora pedagógica Ligia Apel. Nessa dinâmica, todos repetem letras do alfabeto e a expressão corporal enquanto a sonoridade extraída de cada letra se associa a um valor diferente.

Antes de encerrar o encontro, Luiza Cilente, coordenadora do projeto, adsc_0574proveitou para fazer uma retrospectiva do projeto que em agosto desse ano passou pelo Quilombo do Curiaú, no Macapá. Propôs então uma chuva de ideias para que os participantes pensassem em conjunto de que forma a rede de comunicadores amazônicos formada a partir dos encontros poderia funcionar. Foram propostas diversas. A mais curiosa propunha uma espécie de escambo para garantir a sustentabilidade dos coletivos e comunidades envolvidas. A ideia é simples: se determinado grupo ou coletivo tem algum equipamento sobrando, por exemplo, pode trocar com outro grupo ou coletivo que também tenha algo sobrando ou possa oferecer algum serviço em troca. É o retorno à práticas ancestrais que podem ser atualizadas por nós, construindo um novo sistema de convivência, onde pessoas, ideias e conhecimentos possam circular livremente.

*Relato por Luiza Cilente e Ligia Apel

*Fotos: Luiza Cilente, Natalia Fernandes, Nils Brock e Rejane Soares.