Arquivo mensais:julho 2015

Conectando-se em território quilombola

Por Sofia Hammoe e Jaqueline Deister*

 

Nossas vidas são os rios que vão dar no mar” escrevia o poeta Jorge Manrique na Idade Média. Se ele tivesse navegado pelo Norte do Brasil acharia que é o mar que vai dar nos rios da Amazônia. Um deles, o Mearim, na altura da Baia de São Marcos é tão largo que os olhos não alcançam as margens e o ferry-boat parece deslizar no meio do oceano. Uma hora e meia de oceano doce mais seis horas de micro-ônibus comunicam São Luis com Mirinzal, no Maranhão. E com mais dez minutos de moto-táxi você já está no Quilombo Frechal. A primeira Reserva Extrativista de Quilombo do Brasil declarada em 1992.

Nossa equipe esteve formada por Jaqueline Deister e Sofía Hammoe com apoio local de Valdilene Mondego. Ela nos recebeu na sua casa que é como outras do quilombo, com um quintal cheio de galinhas, vacas e porcos.

O Quilombo Frechal é uma autentica comunidade, onde cada uma das mais de duzentas famílias têm o pedaço de terra que precisa e pode cuidar. As ruas são de terra e pasto e os animais se encarregam de manter a grama. A caixa d’água distribui para a maioria das residências, a casa de farinha recebe mãos e braços de quem puder ajudar e todos os trabalhos de manutenção de cercas, ruas e lavouras são realizados de forma coletiva e solidária.

A história do Quilombo começa em 1792 quando a família Coelho de Sousa estabelece uma grande fazenda utilizando mão de obra escravizada entre indígenas e famílias trazidas da Costa de Mina, na África. Desde então várias pessoas foram donas das terras, mas na década de 1980 descendentes daqueles primeiros trabalhadores e trabalhadoras reclamaram a propriedade do território que cuidavam e habitavam por várias gerações.

Com ajuda do Projeto Vida de Negro e da Cáritas, entre outras parcerias, finalmente o local foi declarado Reserva Extrativista do Quilombo Frechal pelo então presidente Fernando Collor de Melo. O nome Frechal é porque naquele lugar os índios usavam um tipo de cana com a qual faziam suas flechas.

As reuniões, festas e eventos se realizam no Casarão, uma construção com salões e quartos, onde antigamente moravam os patrões e onde hoje funciona a biblioteca e o posto de saúde. E ali convivemos durante quatro dias com as mais de vinte pessoas que participaram da oficina. O prédio precisa de reforma e manutenção, mas os órgãos que poderiam ajudar também pretendem decidir sobre o destino do Casarão, coisa que a comunidade não aceita.

Por meio do mapeamento local e comunitário soubemos da existência da prainha, de outras comunidades que fazem parte da reserva, do campo de pouso, que antes era para os aviões privados e hoje serve para dar de comer às vacas, e do telecentro.

Mas a maior surpresa foi saber que com dez computadores no telecentro, instalados há quase dois anos, nunca jamais ninguém sequer tinha tocado as máquinas. Lá fomos nós: ligamos, avaliamos, sacudimos a poeira e as cabas (marimbondos gigantes) e no dia seguinte inauguramos o local.

Seu Bento, como a pessoa mais velha da turma e Paula, como a pessoa mais nova, deram a ligada inicial apertando ao mesmo tempo o botão de dois computadores. A maioria dos e das participantes viu e mexeu pela primeira vez num PC. Antes o grupo já havia criado uma conta no Radiotube, um correio eletrônico e redigido notícias sobre a comunidade e sua história. Então, mostramos como usar o Audacity (programa livre de edição e gravação de áudio) e gravamos entrevistas sobre diferentes assuntos com outras pessoas da comunidade. Na pesquisa histórica e cultural foi muito valioso o trabalho desenvolvido pela fotógrafa belga Cristine Leidgens que conviveu seis anos no quilombo e de quem todos e todas tem um grande carinho.

Nesses dias assistimos todo o processo de elaboração da farinha, comemos peixe e ganhamos mangas, além de aprendermos muito sobre história e cultura. Ficarmos com uma vontade enorme de voltar à comunidade em setembro quando o Quilombo Frechal oferece uma grande festa de São Benedito. Mas sobretudo, ficamos muito enriquecidas e com ideias borbulhando para aprofundar o trabalho e conectar estas experiências em todo o Brasil.

* Respectivamente coordenadora pedagógica e assistente pedagógica da oficina realizada no Quilombo do Frechal.