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Após oficina em Santarém, Rádio Comunitária para todos os Povos encerra primeira etapa

O Projeto Rádio comunitária para todos os Povos encerrou nesse mês de junho de 2015 sua primeira etapa . Após a realização de quatro  oficinas de capacitação junto de emissoras comunitárias e comunidades tradicionais da Amazônia Oriental, uma rede começa a ser desenhada na busca de maior integração entre os povos dessa região.

A ideia é dar continuidade a este processo de  intercâmbio  a fim de fortalecer a radiodifusão comunitária como instrumento de mobilização e integração social.

Nós próximos meses iremos acompanhar o desenrolar das ações iniciadas por cada grupo. assim como as possíveis trocas entre os mesmos.

 

 

Encontro de rádios na capacitação de Santarém

por Denise Viola*

santarémIntegração e participação. Estas duas palavras resumem bem o que foi o encontro de representantes de diversas rádios comunitárias do Baixo Amazonas, que aconteceu de 24 a 27 de junho, em Santarém, no Pará. Costuma-se dizer que no nosso país de dimensões continentais, existem vários “Brasis”.

Mas não seria exagero algum afirmar que dentro desses “Brasis”, existem várias “Amazônias”, com semelhanças e diferenças.

As diferenças não são problema – ao contrário. Mostram a riqueza da região. O mesmo não se pode dizer das semelhanças – a devastação da floresta, a presença forte de empresas de mineração, a prostituição e as drogas, a falta de perspectiva dos jovens, o desmatamento para plantio de soja, a precariedade na saúde, na educação, a falta de saneamento básico e de informação a respeito do que acontece por aquelas terras. E apesar de todas as dificuldades, que vão desde a falta de recursos financeiros, passando pelas barreiras da legislação, até a perseguição por parte de quem se sente ameaçado pela voz do povo, as rádios comunitárias não se calam.

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Reunidas às margens do Rio Tapajós, de Juruti, a Rádio Muirapinima, de Óbidos, a Rádio Santana, de Oriximiná, a RCO, de Belterra, a Rádio Serrabel, de Mojuí dos Campos, a FM Mojuí, Rádio Japiim, de Suruacá, e até do Maranhão, a Quilombola FM de Mirinzal, além da Rádio Rural de Santarém, com o Programa De Mulher para Mulher, saíram fortalecidas e unidas após o encontro.

O projeto Rádio Comunitária para Todos os Povos , uma iniciativa da Associação Mundial de Rádios Comunitárias – AMARC, visa fortalecer a comunicação nas comunidades tradicionais. Nesta edição, o projeto contou com a parceria estratégica da Rádio Rural de Santarém – há 51 anos no ar. Vale destacar que a Rádio Rural de Santarém coordena a RNA – Rede de Notícias da Amazônia.

Na oficina, temas como Direito à Comunicação, Legislação para Rádios Comunitárias, Gestão, Produção Jornalística, Radiorevista e Radiodrama, Edição e Montagem de Programas e a Importância de se Articular em Rede, com a Rede de Notícias da Amazônia, mobilizaram o grupo.

Formada por 13 emissoras de Rádios de sete Estados da Amazônia Legal, a RNA produz informações que visam formar a consciência crítica de seus ouvintes. Comprometida com projetos voltados para o bem comum dos menos favorecidos a RNA valoriza a diversidade das suas culturas e interesses.

É a Amazônia falando para a Amazônia, com notícias que vem do Pará, Amazonas, Roraima, Acre, Rondônia, Maranhão e Amapá.

E esta voz pode ser amplificada também a partir da Agência de Notícias Pulsar Brasil, da AMARC.

Desde o fim da oficina de capacitação, o grupo vem se mantendo em contato, trocando informações, agendas e pautas, se ajudando mutuamente com o que cada um conhece melhor, sabe mais, na certeza de que juntos são mais fortes.

Na volta pra casa, uma pontinha de saudade e a sensação de que agora as distâncias são menores. Como se os rios que cortam seus caminhos já não cortassem mais – ligam. E produzem ondas – as ondas do rádio.

* Radialista e assistente pedagógica durante a oficina realizada em Santarém.

Oficina em Suruacá

por Sofia Hammoe e Luiza Cilente

Saindo de Itaituba fomos para Suruacá, uma comunidade na Reserva Extrativista Tapajós – Arapiuns, localizada na Floresta Nacional dos Tapajós (FLONA). Navegamos 40 minutos de lancha desde o vilarejo de Alter do Chão, que nesta época perde quase toda a areia da praia e até os quiosques ficam embaixo das águas. Depois da travessia com sol e com chuva, chegamos à margem oposta onde só se visualiza uma escadaria e a linda mata fechada. Naquela escadaria fomos recebidas por Nilton, Djalma e Joane e depois por Cleide e Adevânia, duas anjas que cuidariam da alimentação de todos e todas.

Caminhando por ruas de terra, entre as casas, a igreja e a escola, já podemos sentir a brisa fresca local que circula por entre pés de cacau, taperebás, bananeiras, goiabeiras, pés de cupuaçu, acerola e coqueiros dentre muitas outras riquezas. E claro, conhecemos o canto eclético do Japiim, pássaro local, preto e amarelo que imita todos os sons que ouve.

Por isso, a rádio comunitária de Suruacá se chama Rádio Japiim 105.9 MHz. A emissora transmite ao vivo de segunda a sexta feira, das 06h às 07h30 e nos finais de semana. No restante do dia transmite avisos gravados e músicas. Vale destacar que a rádio funciona com energia solar e é fruto da ação e parceria da comunidade com o Projeto Saúde e Alegria.

A atuação desta rede é tão importante nesta região que em Suruacá até ganhou nome de uma rua.

A Rádio Japiim fica no mesmo local que o Telecentro comunitário, que também é uma das ações do Saúde e Alegria, com patrocínio da Petrobrás e da Rits. Neste espaço acontecem quase todas as atividades realizadas na comunidade, desde reuniões de lideranças, boas vindas e despedidas ou apresentações do Circo 5 Estrelas.​

​​​​Tudo o que podemos conhecer em Suruacá é compartilhado, gerido e acompanhado pelas quase 130 famílias que lá moram.

​Durante a oficina os e as participantes realizaram um diagnóstico de dificuldades e riquezas. Um dos principais pontos debatidos foi a falta de energia elétrica. Segundo eles e elas não há interesse dos governos municipal e estadual em instalar energia no local. As alternativas são o gerador, que é ligado apenas das 19h às 22h. Também utilizam a energia coletada por placas solares, mas por enquanto podem apenas abastecer o telecentro, único local que possui energia durante o dia, sempre que as baterias funcionam adequadamente. O gerador tem um custo alto, pois funciona com combustível que é comprado com a arrecadação de uma taxa que pagam moradores e moradoras.

Outras questões como a falta de atendimento de saúde 24 horas, o lixo não orgânico e algumas carências relacionadas à educação também foram apontadas.

O grupo demonstrou já ter intimidade com a apresentação de programas no rádio, afinal, a Japiim, que inicialmente existia como rádio poste, já tem 15 anos na comunidade. Desde 2013, funciona com frequência FM e assim alcança também as comunidades vizinhas.

​Além de debater sobre direito à comunicação, os e as participantes exercitaram​ a linguagem jornalística para rádio com a redação de breves notícias e, em seguida começaram a experiência dos formatos dramatizados.

O grupo criou um sócio drama de 5 capítulos sobre o lixo, com o objetivo de conscientizar a comunidade para o cuidado com a saúde e o meio ambiente.

A experiência foi fantástica. Aliás, continua sendo, porque ainda falta a montagem de quatro capítulos que ficaram como tarefa para as próximas semanas.

E finalmente, no sábado 23 de maio, fomos honradas com a apresentação do Circo 5 Estrelas e de Dona Martina, que cantou as boas vindas e a despedida na mesma hora. Fomos presenteadas com cordões, cestinhas, abanadores e pedrinhas, além de uma carícia do Tapajós que fez questão de nos molhar bastante na hora de entrar na voadeira, de volta para Alter do Chão.

Já estamos em casa, com saudades das ondas do rio, dos cânticos Munduruku e de Suruacá, da macaca Nika, de cada um e cada uma que agora levamos também no coração.

Próxima estação: Quilombo do Frechal, no Maranhão.

Terceiro dia na Aldeia do Mangue

por Sofia Hammoe

Passamos o último dia na Aldeia do Mangue junto com o povo Munduruku. No sábado a chuva decidiu aparecer bem forte e trouxe uma leve brisa junto. Mas no Domingo, o calor voltou a tomar conta da região e o ar ficou parado o dia todo.

Quem se mexeu bastante foi a macaca Nika, da espécie macaco-aranha, que convive na Aldeia igual aos outros animais e nos acompanhou em todas as atividades da oficina. Pela manhã os e as participantes redigiram notícias e apresentaram um boletim com informação local.

Mais tarde foi a vez das entrevistas. Os grupos realizaram três entrevistas. Uma com Amâncio, o administrador da escola; uma com José Roberto, mais conhecido como Falcão, motorista da Funai e outra com o cacique Tiago.

Ao final do dia, o aniversariante Leuciano criou seu email e o pessoal enviou mensagens com as entrevistas anexadas. Para terminar, a cereja do bolo foi na verdade uma noz: a família do Rozeninho, coordenador da Associação Pahyhyp, presenteou todos e todas com beiju de castanha na merenda!

Na Aldeia do Mangue ficou a semente da produção local, esperamos notícias Mundurukus nas próximas semanas.

Para terminar as atividades em Itaituba, visitamos a Rádio Comunitária Alternativa, e participamos do programa da manhã apresentado por Jair de Souza. Luiza Cilente, coordenadora do projeto, a educadora Dóris e, eu, Sofía, demos muito ênfase no direito à comunicação e na necessidade de todos e todas nos envolvermos na campanha “Para Expressar a Liberdade” que coleta assinaturas para o Brasil ter uma nova regulamentação da comunicação.

Agora nos espera Suruacá, na Floresta Nacional dos Tapajós. Mas essa será outra história…

Segundo dia na Aldeia do Mangue

por Sofia Hammoe,

Sábado 16 de maio foi o segundo dia da oficina na Aldeia do Mangue em Itaituba no Pará, dando continuidade às atividades do Projeto “Rádios Comunitárias para Todos os Povos”.

Nesta oportunidade as e os participantes compartilharam suas visões sobre quais são as riquezas da região e, junto com os problemas, procuraram uma forma possível de debatê-las e comunicá-las dentro da região, do país e do mundo.

Também houve prática de redação de notícias e algumas brincadeiras para amenizar os trabalhos.

Durante as atividades do dia apareceram assuntos da luta do dia-a-dia da comunidade, como a omissão da questão indígena na maioria dos meios de comunicação, onde só tem visibilidade na semana do dia 19 de abril. Ou a construção de uma imagem negativa quando só mostram indígenas interditando estradas como forma de protesto contra o desrespeito aos seus direitos.

No final do dia conhecemos a Aldeia Praia do índio, também da etnia Munduruku, onde as mulheres lideram os jogos indígenas do Meio Tapajós no futebol.

Nas próximas horas enviaremos o relato do terceiro dia. Enquanto isso, partimos de Itaituba para prosseguir a viagem com destino a Suruacá.

(continuará…)

Primeiro dia na Aldeia do Mangue

por Sofia Hammoe*

O Projeto “Rádios Comunitárias para Todos os Povos” começou com a seleção de assistentes pedagógicas. Dentre as propostas enviadas foram selecionadas as associadas Dóris Macedo do Ilê Mulher de Porto Alegre – RS, Denise Viola associada individual do Rio de janeiro – RJ e, Jaqueline Diester da Agência Informativa Pulsar Brasil.

Depois de reuniões virtuais de planejamento, empreendemos a viagem para os primeiros encontros articulados com duas comunidades do estado do Pará, nas margens do Rio Tapajós. Pegamos a lancha em Santarém e durante sete horas fomos quase levitando sobre as águas, acompanhadas pelo entardecer inspirador.

O primeiro dia foi hoje, na Aldeia Mangue no município de Itaituba, onde fomos recebidas por Rozeninho Munduruku, coordenador da Associação Pahyhyp e produtor local do projeto, e fomos apresentadas ao cacique Tiago.

Mais de vinte pessoas, na sua maioria jovens da própria aldeia e de outras como a de Praia do Índio e Munduruku participaram da jornada onde foram colocadas as características da região. Também refletimos sobre o Direito à Comunicação e o acesso a ele que os cidadãos e cidadãs têm ou não em Itaituba.

A Terra Indígena Munduruku abrange três municípios. Em Itaituba tem a Aldeia Mangue, Praia do índio, Sawré Apompu e São Luiz do Tapajós. Em Trairão tem a Aldeia Dace Awaptu e Sawré Muibu. E no municio de Jacareacanga as aldeias são as de Sai Cinza e Munduruku.

Amanhã continua a oficina que termina no Domingo. Esperamos conhecer mais um pouco das comunidades e da única rádio comunitária que soubemos que há na cidade, a Rádio Alternativa. Também vamos conversar sobre produção de rádio e as possibilidades de produzir entrevistas e programas.

Na segunda nos espera de novo a lancha rumo a Suruacá, descendo o Tapajós. Mas ainda temos algumas histórias, sons e imagens dos e das Mundurukus ao redor de Itaituba.

 

* Sofia é educadora e coordenadora pedagógica do projeto Rádio Comunitária para todos os povos”