Grupo do Brasil durante o Fórum Panamazônico fala a importância do Projeto Mídia dos Povos (Criado e apoiado pela Amarc Brasil)

Falando um pouco de sua experiência

Na manhã do dia 27 de Abril, o grupo do Brasil que é composto por: Denise Viola (Coordenadora da Amarc Brasil “Associação Mundial de Rádio Comunitária”), Ligia Apel (Representante da rede de Mulheres da Amarc e integrante do conselho politico da associação), Dilly e Jaque (Jornalistas da Pulsar Brasil), especificamente Joseane Calazans, Geovana Ramos, Suelane Barros, Elis Lucien, João Ataide, Eduardo Henrique, Jonas Duarte, falaram sobre suas experiências quando conheceram e como o projeto chegou até eles (as), sobre a visão ampla e relataram também que o projeto serviu como uma ferramenta para falar sobre suas historias, lutas, concretizações, povos, comunidades e etc…

Foi um momento bem oportuno que conhecemos a cultura e trabalho de cada um em suas respectivas cidades e comunidades.

Convocatória para participação na Rádio Fórum durante FSPA

Convocatória

O projeto Mídia dos Povos, da Associação Mundial de Rádios Comunitárias (AMARC Brasil) convida integrantes de povos tradicionais da Amazônia e coletivos de mídias comunitárias e livres de todo o país a participarem da Rádio Fórum, proposta pelos projetos parceiros Mídia dos Povos e A Nave Vai, a ser realizado durante o Fórum Social Pan-Amazônico (FSPA) entre os dias 28 a 1 de maio de 2017.

O Fórum Social Pan-Amazônico

De 28 de abril a 1 de maio de 2017, terá lugar em Tarapoto, Amazônia peruana, o VIII Fórum Social Pan-amazônico. Esse espaço, gerado a partir do Fórum Social Mundial (FSM), reúne pessoas, povos, comunidades e organizações que estejam em busca de um desenvolvimento realmente sustentável para a Amazônia, onde sejam plenamente garantidos a justiça social e ambiental.

Para a realização deste evento foram realizados diversos pré-fóruns unindo pessoas dos nove países que englobam a floresta amazônica. No Brasil, país que detém 60% da floresta, foram realizados pré-fóruns em Belém, Macapá e Manaus.

Durante o pré-fórum realizado em Tarapoto, no Peru, em outubro de 2016, a coordenação do projeto Mídia dos Povos, da AMARC Brasil, se encontrou com participantes do projeto “ A Nave vai” para iniciar a construção de ações conjuntas, já que ambos projetos fazem parte do portal Pororoca em Rede e são formados por comunicadores populares amazônic@s.

Desse encontro surgiu a ideia da realização de uma rádio Fórum durante o FSPA. A ideia é a construção de um estúdio aberto, no próprio espaço do Fórum, com a transmissão feita em FM e também através de uma rádio web.

História da Rádio Fórum

Até 2010 era uma constante organização de Rádios Fórum durante todos os Fóruns Sociais Mundiais (FSM) e outras reuniões do movimento alter-mundialista, no qual a AMARC Brasil participou ativamente durante alguns anos. Foi um importante espaço de encontro, não só para expandir e multiplicar os diálogos entre diversos atores sociais durante o evento, mas também para reforçar a sua cobertura multilíngue em todo o mundo. Ao mesmo tempo, foi importante para a aprendizagem mútua entre diferentes grupos e coletivos de mídia livre e comunitária. Infelizmente, a cobertura de rádio do Fórum Social Mundial deixou de acontecer ano passado.
No entanto, ainda há um forte movimento global de rádios e meios de comunicação livres e comunitários. Muitos dos contatos e colaborações aumentaram durante as diferentes Rádios Fóruns e permanecem intactos. Até hoje co-produções são feitas e há o desejo de reviver as coberturas compartilhadas. Por isso, as equipes do projeto Mídia dos Povos e o projeto A Nave Vai acreditam que o Fórum Social Pan-amazônico será uma ótima oportunidade para reviver uma produção colaborativa como a Rádio Fórum no contexto amazônico. Nesse evento, por parte dos participantes brasileiros, vamos contar ainda com a parceria da equipe da Agência de Notícias da AMARC, Pulsar Brasil.

Para a construção e atuação nesse projeto, foram pensados diferentes Grupos de Trabalho:

  • Técnico: equipe responsável pela parte técnica da rádio como instalação de antena e equipamentos, retransmissão de sinal e manutenção da rádio web;

  • Reportagens: equipe responsável pela criação de roteiros, entrevistas, locução e edição de reportagens em áudio, tanto no período que antecede o Fórum como durante e também após. Também podem atuar como apresentadores dos programas feitos ao vivo e tradutores;

  • Documentação: equipe responsável por documentar por meio de filmagens, fotografias e entrevistas a realização e construção da Rádio Fórum durante o FSPA com a finalização de um material documental sobre o evento;

  • Produção: equipe responsável pela garantia de infra-estrutura da rádio, construção da grade de programação, ajuda na produção de reportagens e divulgação dos programas. Também deverá estar em contato com pessoas chaves da organização do FSPA e atuar também como tradutores;

  • Produção de narrativas amazônicas: equipe responsável pela produção de conteúdos, desde roteiro, locução e edição em áudio que contem histórias e mitos da região amazônica, contribuindo também na criação de materiais como vinhetas e outros materiais de divulgação no período que antecede o Fórum;

Critérios de Seleção:

Diferente dos demais encontros do projeto Mídia dos Povos, a Rádio Fórum não será exatamente um encontro para a realização de oficinas. Apesar da troca de saberes e aprendizados serem uma constante na dinâmica proposta, a Rádio Fórum propõe-se a ser um projeto de ação direta: a realização de uma rádio durante o Fórum Social Pan-Amazônico (FSPA). Como um dos principais objetivos do projeto Mídia dos Povos é o fortalecimento de uma de Rede pan-amazônica de comunicadores amazônicos, este evento visa promover as principais demandas dos povos e comunidades da Amazônica através de uma comunicação colaborativa e horizontal. Na parceria com os participantes da Nave, que englobam pessoas e grupos da Amazônia peruana e equatoriana, o Mídia dos Povos está responsável por garantir a participação da equipe brasileira no encontro.

Levando em consideração que os encontros anteriores vêm integrando diferentes atores, o projeto acredita que seja interessante dar prioridade a pessoas e/ou representantes de grupos e coletivos que já tenham participado de algum dos encontros promovidos anteriormente. Em respeito ao equilíbrio de gênero se buscará garantir ao menos 50% de mulheres no grupo. Outro critério e a disponibilidade de tempo e data flexível, já que @ candidato deve estar disponível não apenas durante as datas do evento mas dispost@ a colaborar em sua pré e pós produção. Além disso, devido ao longo percurso para se chegar à Tarapoto desde a Amazônia brasileira, é necessário ter ao menos 10 dias disponíveis para a viagem. @s participantes selecionad@s terão transporte, translado, hospedagem e alimentação garantidos.

Para se candidatar é necessário preencher o seguinte formulário: https://goo.gl/forms/mUthcCw7CZ06ouBc2

Período de inscrição: de 6 a 16 de fevereiro de 2017

Divulgação dos resultados: 6 de março de 2017

Contato: midiadospovosamazonia@gmail.com

Quilombo do Curiaú

Quilombo Do Curiaú

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Sawré Muybu

Sawré Muybu

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Ciclo de oficinas na Aldeia Sawré Muybu

O Tapajós é um rio de 1784 km de extensão. Suas águas percorrem margens de terras ancestrais que ainda hoje abrigam diversos povos brasileiros cuja cultura está diretamente relacionada à natureza que os cerca. A caça, a pesca e o extrativismo são práticas comuns entre os que habitam o Baixo, o Médio e o Alto Tapajós, no Pará.

Desde Santarém, após uma viagem de aproximadamente seis horas em uma lancha grande e rápida, @s participant@s do terceiro encontro do projeto Mídia dos Povos, chegaram ao município de Itaituba. De lá, partiram em mais uma viagem por terra, com duração de duas horas até o porto de Buburé de onde saem as voadeiras com destino às comunidades do Médio Tapajós. O destino final: a aldeia indígena Sawré Muybu, do povo Munduruku.

Moradores da aldeia aguardavam o grupo, que chegava junto de participantes e oficineiros de fora, para um encontro onde se trocaria a respeito de três diferentes técnicas: a construção de placa solar; projeto, captação e edição audiovisual e elaboração de projetos para captação de recursos.

Além daqueles que já integram a Rede Mídia dos Povos, também se uniram ao grupo indígenas Munduruku de outras aldeias da região. Os participantes vindos de Tefé, Macapá e Santarém já haviam participado de pelo menos um dos encontros anteriores.

Após uma grande roda de apresentação, os grupos foram divididos entre as oficinas que durariam os próximos cinco dias. As mulheres, que geralmente carregavam seus filhos nos braços ou entre as pernas, eram maioria e surpreenderam enchendo a oficina de construção de placa solar dada por Jonas Duarte, indígena da etnia Miranha localizada em uma comunidade do Médio Solimões. Jonas levou os materiais necessários para a construção das placas, dentre eles: vidro, cabos, papel alumínio, ferro de solda. A oficina se dividiu em duas partes, a teórica e a prática, sendo que a primeira se mostrou mais desafiante por exigir conhecimentos intermediários de física e matemática. De qualquer forma, Jonas esteve solicito para sanar as dúvidas dos participantes, que segundo ele, perguntavam bastante. Durante os cinco dias, o grupo se encontrava pela manhã, tarde e às vezes pela noite. Como já existiam algumas placas na aldeia, estas serviram de referência para exemplificar o processo de captação e reserva da energia solar para ser utilizada durante o dia pelos moradores, já que a maior parte da energia utilizada no local vêm de um gerador que é ligado somente na parte da noite. A utilização dessas placas solares, de tamanho suficiente para carregar celulares e computadores, pode ajudar na economia de combustível usado no gerador, além de ser mais sustentável.

Atualmente os Munduruku enfrentam muitas ameaças ao seu bem viver. Muitas de suas aldeias, às margens do Tapajós podem ser totalmente alagadas caso o projeto de construção da Usina hidrelétrica dos Tapajós seja realmente levada adiante pelo governo federal. No mesmo período do encontro, um ônibus havia saído com destino à Brasília com dezenas de indígenas dispostos a ocupar o Ministério da Justiça até que o governo se comprometesse a demarcar suas terras. O povo Munduruku iniciou em outubro de 2014 o processo de auto-demarcação de seu território depois de sete anos aguardando ação da Fundação Nacional do Índio (Funai). Foram dias abrindo picada através da mata. O processo foi documentado por um grupo de mulheres indígenas que através de uma oficina iniciavam seu processo de produção audiovisual. O vídeo foi editado e pode ser assistido no youtube. De acordo com a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, todo grande empreendimento deve consultar as comunidades a serem afetadas mas o governo tarda em cumprir os acordos. Além deste projeto desenvolvimentista, eles enfrentam a intervenção de garimpeiros, madeireiros e palmiteiros ilegais em suas terras. Diante disso, a preservação das tradições e conhecimentos ancestrais são de extrema importância no fortalecimento de sua luta. E existem diversas maneiras de resgatá-las e utilizá-las em seu favor. Uma delas é o resgate da língua materna e o uso da pinturas corporais. Tais temas foram abordados pelos participantes da oficina de audiovisual oferecida por Sília Moan, designer que há dez anos trabalha a prática de vídeo e edição de imagens em software livre junto à povos tradicionais. Como resultado da oficina foram produzidos quatro mini-documentários que, por decisão deles, ainda não serão divulgados.

Sem poder contar com o apoio do poder público, os indígenas do médio Tapajós buscam garantir cada vez mais sua própria autonomia. Foi pensando na possibilidade de garantir seus próprios recursos, sem precisar da intermediação de governos, ONGs e instituições privadas, que o comunicador comunitário, integrante do Fórum da Amazônica Oriental (FAOR) Marquinho Mota, ofereceu uma oficina de elaboração de projetos. Em cinco dias, após discutir o formato, temáticas e fontes de recursos, os participantes concluíram um projeto de captação de recursos para dar continuidade a aprendizagem das técnicas audiovisuais. Em breve, o projeto será enviado a alguns fundos. O conhecimento de participantes vindos de fora foi fundamental para fortalecer o intercâmbio de saberes e estratégias que ajudem a fortalecer suas lutas que muito tem em comum. A imersão no cotidiano da aldeia também foi muito importante, desde a prosa no café da manhã até a pausa para o futebol diário iniciado com o time das mulheres, e seguido pelo time dos homens. Foi assim que, em uma pequena aldeia na margem dos rio Tapajós, entre indígenas, ribeirinhos, ativistas, quilombolas, professores e comunicadores, novas sementes do conhecimento foram trocadas e juntas semeadas, fortalecendo as raízes de um território e a luta dos povos que habitam terras ancestrais.

Reflexão de João Ataíde Santana

João Ataíde Santana¹

Só para refletir, tendo como base um documento histórico de Pierre-Joseph Proudhon (1840).

Aprendemos muito com os documentos históricos, muitas das atitudes de ontem são, também, atitudes dos dias de hoje. A receita pode ser a mesma ─ a emancipação das classes à margem de tudo.

Amigos e irmãos quilombolas, na proporção em que a sociedade se torna esclarecida, diminui a autoridade (real) (…) aos poucos, a experiência produz hábitos, que se desenvolvem em costumes. Então os costumes são formulados em conceitos, enunciados em princípios, em suma, transformados em leis que o próprio rei, a lei viva, terá de obedecer. Vem o tempo em que os costumes e as leis são tão numerosos que a vontade do “príncipe”, por assim dizer, é submetida à vontade pública. E, ao tomar a carona, o príncipe é obrigado a jurar que governará conforme os costumes e os usos estabelecidos; que ele é o poder executivo de uma sociedade onde as leis são feitas independentes dele.

Laissez Faire, Laissez Passez, Le monde va de Lui-même (deixa estar, deixe passar, o mundo caminha por si), não, não devemos nem podemos, como negros quilombolas emancipados e empoderados, deixar o mundo caminhar por si só, elegemos nossos representantes, queremos ascensão coletiva por meio do voto, o príncipe compra, o príncipe avança, não esqueçamos que temos a maioria, somos a maioria. Dessa forma, caminhamos a passos longos pela autonomia de nossa liberdade, mostrando como a história se repete. A exemplo da cidadania em Atenas, onde era dada a oportunidade de participação política a todos os que pertenciam a categoria de “cidadão”, tal qual as concepções vigentes de cidadania na França moderna.

A ideia de cidadania foi construída ao longo do tempo, história em diferentes épocas e sociedades, em razão dos embates entre indivíduos, grupos, classes e instituições que compõem o corpo social, então, somos quilombolas, somos cidadãos, temos e somos os donos dos nossos destinos, fazemos parte e estamos no centro da discussão, não chegaremos a lugar algum se estivermos isolados.

Por fim, digo que o único caminho para essa tal liberdade é o nós, por nós mesmos, negros intelectuais de todo lugar uni-vos, uni-vos, e, adentremos os quilombos do Brasil, não como capitães do mato, sim como zumbi, como Abdias Nascimento, como Oliveira Oliveira, não entremos como massa de manobra, sim como esclarecedores e formadores de nosso povo quilombola.

Alter do Chão

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Software livre, resistência e saberes ancestrais em Alter do Chão

Software livre, novdsc09447as tecnologias e saberes ancestrais foram os temas que permearam o segundo encontro do projeto Mídia dos Povos da AMARC Brasil. As atividades foram realizadas entre os dias 21 e 25 de setembro em Alter do Chão, no Pará, reunindo diferentes etnias indígenas, representantes de movimentos sociais e coletivos de mídia da Amazônia brasileira. O grupo foi recebido no Ponto de Cultura Oca onde também funciona a Escola Cajueiro do Grupo Vila Viva. Foi lá que os participantes se instalaram durante os cinco dias.

A diversidade era marcante entre entre os presentes: quilombolas do Quilombo do Curiaú, localizado em Macapá, no Amapá, – local onde ocorreu o primeiro encontro – representantes indígenas das etnias Munduruku, Koukama, Miranha e Kumaruara; comunicadores das comunidades ribeirinhas de Juruti Velho e Mojuí dos Campos, no Pará; ativistas do coletivo Puraqué, de Santarém; arte-educadores de Belém e um midiativista de São Luis, no Maranhão.

Software livres são programas abertos e gratuitos. Além de garantir o acesso mais democrático dos programas, o uso deste tipo de software garante que o usuário não precise pedir qualquer permissão ou se comprometer com licenças proprietárias restritivas. O projeto Mídia dos Povos acredita que estimular o uso deste tipo de software junto às comunidades e projetos de mídia alternativos, comunitários e livres, permite a maior liberdade e autonomia aos mesmos.dsc_0210

Aline Freitas, programadora e ativista de software livre de São Paulo e Nils Brock, midiativista e cooperante internacional da AMARC Brasil, foram responsáveis por introduzir as técnicas básicas de software livre, como aprender a instalar Ubuntu nos computadores e brincar um pouco com a enigmáticas (pra muitos!) linguagem da programação.

dsc09460Todos os dias, antes de iniciar as atividades, os participantes que dormiam juntos em um redário, acordavam ainda de madrugada para ver o sol nascer na Praia do Amor, uma ilha localizada em frente à praça central de Alter do Chão. Depois de renovados em seu banho matinal no Tapajós, seguiam para o café da manhã. Logo antes de iniciar a primeira oficina, aproveitavam a presença de xamãs, pajés e sacerdotes de diferentes etnias para realizar um ritual de abertura. Renovados e encorajados, seguiam para as práticas.

A apresentação de cada participante, feita através da escolha de um objeto para falar sobre si mesmo tomou bastante tempo do primeiro dia, já que cada pessoa ali presente trazia um universo de experiências, saberes e expectativas para compartilhar com todos.

O primeiro dia foi inteiramente dedicado a instalação do sistema Ubuntu nos computadores dos participantes. Quem não havia levado computador, pode fazer a experiência numa das máquinas do telecentro do Ponto de Cultura Oca que abrigou o encontro. Muitos dos computadores estavam sem uso devido a carência de manutenção. Diante disso, Tarcísio Silva, professor e ativista do coletivo Puraqué, que é o produtor local do encontro, propôs que durante as oficinas, abrissem os computadores para aprender um pouco sobre a manutenção e limpeza básica dos mesmos. Ele mostrou como esse procedimento podia ser feito com simplicidade: “com uma chave de fenda e um pincel macio é possível salvar um computador”. Esse também foi um exercício de metareciclagem, já que foram usadas peças de outras máquinas que não poderiam ser recuperadas para consertar alguns computadores. Ao final do encontro cinco computadores foram restaurados e agora podem voltar a serem usados no espaço.

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O segundo dia foi dedicado a troca de conhecimentos e saberes entre os participantes. Os Grupos de Trabalho haviam sido decididos no dia anterior a partir de um mapa mental elaborado durante as falas dos participantes:

GT1. Uso de Saberes Ancestrais; Realidade Cultural Munduruku e Dança, História, Pintura e Experiência de ser Xamã, Payun e/ou Babalossay/ com Azazel Koukama, Jonas Duarte e Milson dos Santos;

GT 2. Metareciclagem e educomunicação; com Tarcísio Silva e Rayane do Coletivo Puraquê;

GT 3. Mídia e Meios de Comunicação nas Comunidades; Ideias de como Trabalhar Comunicação nas Comunidades e Ferramentas de Comunicação através do Hip Hop/ com Rejane Souza e João Ataíde;

GT 4. Experiências de Luta em Defesa das Comunidades; Experiência do Grupo de Mulheres/ com Eduardo Henrique, Marunha Munduruku, Rayane

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Na manhã do terceiro dia, Milson dos Sp1019779antos, ativista do movimento negro do Maranhão, apresentou a plataforma de autocartografia Lagbaye Lyika, uma autocartografia tático ancestral, que permite o envio de denúncias de situações de violência, mapeando áreas de riscos para alertar pessoas e organizações sociais, principalmente de matriz africana. Para mostrar seu funcionamento, Mil convidou o participante Josivan Souza, de Jururti Velho, Pará, para inserir denúncias sobre os impactos ambientais e violações de direitos provocados pela multinacional Alcoa ao explorar bauxita e outros minérios na região de sua comunidade.

A parte da tarde foi dedicada a desdsc_0356mistificação da linguagem da programação que segundo a nossa facilitadora Aline Freitas “não é um bicho de sete cabeças”. Ela explicou que se trata de um exercício de tradução da linguagem humana para a linguagem da máquina. E para isso, propôs exercícios com a linguagem conhecida como Pynthon. Outro exercício proposto foi simular o clássico jogo pedra, papel e tesoura com a linguagem binária da programação. O dia foi encerrado na beira do rio Tapajós quando o xamã Azazel Koukama realizou um ritual de louvor ao pôr do sol e os participantes consagraram a bebida sagrada caiçuma, preparada por ele durante o dia.

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A parte da manhã do quinto dia foi dedicado à arte junto dos nossos arte-educadores de Belém do Pará. Os participantes se dividiram em dois grupos, udsc09313ns foram trabalhar com grafite junto com o grafiteiro Marcelo Silva, e outros produziram um música na oficina oferecida por Augustinho Hijo.

dsc09553Marcelo já havia iniciado alguns desenhos nas paredes do espaço cultural e deixou que os participantes finalizassem as obras. As portas dos banheiros também foram grafitadas com lindas flores. E não apenas computadores que foram reciclados. Além das paredes das salas de aula da OCA, Marcelo grafitou uma kombi sucateada que estava “jogada” na esquina do quarteirão da escola Oca. A grafitagem agradou a dona da kombi que estava planejando joga-la no lixão. Ainda disse ao artista que a levaria para a frente de sua casa.

Agostinho fez rápidas explicações sobre notas musicais e como combiná-las com ritmos e poesia. O desafio colocado por Agostinho aos participantes foi de, coletivamente, tornar poesia os sentimentos, as emoções e o conhecimento que estava sendo compartilhado durante todo o encontro.

dsc09206O trabalho foi desenvolvido em duas etapas: enquanto Agostinho acertava alguns acordes, afinava a guitarra e ajustava os equipamentos, os participantes conversaram sobre o que queriam transmitir. As palavras chaves foram listadas: sabedoria ancestral, terra, clamor, rio, sangue, indígenas, negros, mãe terra e mãe d´água, preservação, riquezas, Amazônia, respeito, meio ambiente, vida. E foi assim que surgiu essa linda composição (clique aqui pra cessar o vídeo)

Parana, Áwira, Tuyuka, Paranawatsu

Se sou peixe, o que comer

Se sou planta, o que beber

Em qual rio vou nadar (bis)

Se a terra clama e chora

O rio sangra a toda hora

Vamos despertar (bis)

# Do lago verde ao Tapajós

O Amazonas, corijós

Erês e cuiantãs (bis)

Da ganância vem o homem

Dinheiro que não se come

Já dizia os anciões

O canto da mãe d´água

Que veste oxum, que veste Yara

Pela flora preservada

Das riquezas maltratadas

Da pureza dessa água

Respeitem, aqui é nossa casa.

dsc_0295À tarde foi o momento de retornar aos computadores na oficina sobre segurança na internet, novamente com Aline. Ela alertou para a falta de privacidade e a forma como grandes empresas como o Google e Facebook lucram a partir do banco de dados das informações que fornecemos ao usarmos seus serviços. Além de sermos constantemente rastreados também somos bombardeados diariamente com a publicidade. Por isso, ela nos forneceu uma lista de programas, softwares, e-mails e sites alternativos que possibilitam o uso mais seguro dos serviços online. Um exemplo é o duckduckgo, buscador alternativo ao google, que não registra as informações dos usuários. O dia foi novamente encerrado ao pôr do sol do rio Tapajós.

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No último dia foi realizada a dinâmica Alfabeto do Futuro, com a coordenadora pedagógica Ligia Apel. Nessa dinâmica, todos repetem letras do alfabeto e a expressão corporal enquanto a sonoridade extraída de cada letra se associa a um valor diferente.

Antes de encerrar o encontro, Luiza Cilente, coordenadora do projeto, adsc_0574proveitou para fazer uma retrospectiva do projeto que em agosto desse ano passou pelo Quilombo do Curiaú, no Macapá. Propôs então uma chuva de ideias para que os participantes pensassem em conjunto de que forma a rede de comunicadores amazônicos formada a partir dos encontros poderia funcionar. Foram propostas diversas. A mais curiosa propunha uma espécie de escambo para garantir a sustentabilidade dos coletivos e comunidades envolvidas. A ideia é simples: se determinado grupo ou coletivo tem algum equipamento sobrando, por exemplo, pode trocar com outro grupo ou coletivo que também tenha algo sobrando ou possa oferecer algum serviço em troca. É o retorno à práticas ancestrais que podem ser atualizadas por nós, construindo um novo sistema de convivência, onde pessoas, ideias e conhecimentos possam circular livremente.

*Relato por Luiza Cilente e Ligia Apel

*Fotos: Luiza Cilente, Natalia Fernandes, Nils Brock e Rejane Soares.

Apropriação Tecnológica no Quilombo do Curiaú

Primeiro dia do encontro

Sol forte, calor úmido e o canto dos DSC_0213pássaros que rondavam a hortinha medicinal da escola José Bonifácio, no Quilombo do Curiaú, em Macapá, no Amapá, foi o cenário inicial do primeiro encontro do projeto Mídia dos Povos em 2016. O tema: apropriação tecnológica para rádio comunitárias e livres. Os cerca de vinte inscritos, alguns moradores, outros vindos de outros estados, traziam muita curiosidade a respeito da dinâmica necessária para montar uma rádio na comunidade onde vivem, além da vontade de compartilhar suas próprias vivências.

A ideia do projeto é promover encontros dialógicos no sentido de não traçar distâncias e impor papéis marcados entre quem ensina e quem aprende. Por isso, todos os participantes selecionados tiveram a oportunidade de oferecer uma roda de conversa, oficina ou qualquer outro tipo de dinâmica para compartilhar seus conhecimentos. Da mesma forma, apesar de um objetivo final, que era a transmissão coletiva de um programa de rádio, a programação do encontro estava aberta a mudanças de acordo com as necessidades geradas durante o processo.

No primeiro dia foram realizadas dinâmicas para que todos se conhecessem melhor. Depois de uma conversa em pares, cada par se apresentou como se fosse o outro que acabou de conhecer. Afrouxando a timidez dos primeiros minutos, seguimos como uma breve explanação do projeto e espaço para tirar dúvidas a respeito do que se seguiria. Como o tema norteador do encontro era apropriação tecnológica, havia grande expectativa a respeito da construção de um mini-transmissor de rádio, oficina que seria facilitada por Sérgio Luis, mais conhecido como Serginho, integrante das rádios Xibé e Voz da Ilha, em Tefé no Amazonas.

Essa proposta nos trouxe o primeiro desafio: todo material trazido por Serginho havia sido barrado pela Polícia Federal já no embarque no aeroporto de Tefé. Foi assim que ele, junto do produtor local do encontro, João Ataíde, tiveram que se aventurar pelas lojas de material eletrônico de Macapá. A garimpagem foi árdua, mas um encontro fortuito possibilitou a montagem do mini-transmissor e trouxe a parceria de Morais, técnico em eletrônica que acabou por formar uma parceria com o grupo.

Um dos participantes vindo do Rio de Janeiro, Thiago Novaes, que há anos atua junto de um coletivo de rádio livre, se propôs a falar sobre a história do rádio. Thiago destacou etapas desde a invenção do mesmo, passando pelo poder indiscutível como instrumento de guerra (nazismo), até o controle do Estado. Comentou sobre a Declaração dos Direitos Humanos e Pacto de San Jose da Costa Rica e a contradição do estado brasileiro em ser signatário destes documentos mundiais e coibir e manter o controle do uso do espectro em relação à população.

A coordenadora pedagógica do projeto que atualmente mora em Parnaíba, no Piauí, Ligia Apel, nos trouxe uma reflexão acerca da conceituação da comunicação. Ela destacou a importância de superarmos o conceito linear que separa emissores de receptores para um entendimento circular da comunicação, onde as mensagens não circulam em apenas um sentido, tornando todos os envolvidos receptores e emissores.

O dia se encerrou com uma oficina facilitada por João Ataíde, que abordou a importânciaDSCN0088da comunicação comunitária para políticas afirmativas, principalmente na perspectiva da luta por igualdade racial. Ele também apresentou um breve roteiro de programa para que os participantes pudessem esboçar seus programas, em grupos, a serem apresentados no final do encontro, durante uma transmissão coletiva

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Segundo dia do encontro

O segundo de dia em Macapá foi iniciado com uma visita ao Marco Zero, um monumento que marca a passagem da linha do equador pela cidade, único local do Brasil atravessado por essa linha. Em seguida, o grupo voltou a ser reunir na escola do quilombo Curiaú onde o dia foi dedicado as apresentações das rodas de conversar propostas e apresentadas pelos participantes. Quem iniciou o debate foi Joseane Calazans que falou sobre a origem e história da comunidade de Mazagão onde nasceu; Eduardo Enrique, que veio dos arredores de Santarém, da cidade de Mojuí dos Campos, no Pará, compartilhou suas experiências sobre rádio comunitária, rádio poste e cultura nordestina; A jovem Luiza Maria de Tefé, no Amazonas nos apresentou o projeto que realiza com mais quatro amigas da escola, o Programa Club Five iniciado em um projeto realizado nas escolas chamado Comunicar para a vida. Hoje o programa tem um horário na grade de uma emissora de longo alcance na cidade; Isis Tatiane da Silva moradora do Quilombo do Curiaú falou sobre a importância da cultura e tradição de sua comunidade para manter viva a identidade local; Danilo José Martins Silva, também do Amapá e é presidente da comissão da verdade da escravidão negra da OAB/AP, abordou questões relacionadas ao negro e a lei penal; a também amapaense Rejane Soares abordou trouxe a discussão sobre a importância de entender e se apropriar dos mecanismos da comunicação de massa e de conquistar espaços na mídia comercial; Thiago Novaes ativista do Rio de Janeiro apresentou o conceito de rádios livres traçando suas diferenças e semelhanças com as rádios comunitárias; Bruno de Paula Santos da Silva, do Amapá encerrou o dia falando sobre as influências comerciais e econômicas da comunicação usada como canal de acesso em meio às complexidades regionais.

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Terceiro dia do encontro

Riane Nascimento trouxe em suas malas, desde de Salvador, seu material habitual de trabalho: diferentes tipos de gravadores e microfones, cabos e surpresas. Ela, que trabalha coma captação direta de som para cinema, se dispôs a dar uma oficina. Mas antes de ir para a técnica propôs uma sensibilização através de uma dinâmica de escuta: fechar os olhos para perceber todos os sons do ambiente passam despercebidos quando estamos envolvidos por outros afazeres.

Partindo para a técnica, foi possível fazer o manuseio dos equipamentos básicos necessário para a captação de som. Riane tem experiência dessa atividade para produtos audiovisuais, mas fez comparações com captação para rádio, entendendo que por esse meio as imagens são produzidas pelo mente do ouvinte.

O grupo seguiu para exercícios de captação de áudio realizando entrevistas, depoimentos e vinhetas dos programas elaborados no primeiro dia. Logo, Serginho dá início da oficina de construção de transmissores com a apresentação de suas experiências de estímulo a apropriação tecnológica na cidade de Tefé e em comunidades no estado do Amazonas. Fez um apanhado teórico da capacidade e peças que compõe um mini-transmissor.

Mas foi no espaço de Dona Rosa, responsável por alimentar todos os participantes durante os dias de encontro, que começou-se a mexer com soldas e diversas mini-peças eletrônicas, dando início a semeadura de rádios pelos quilombos do Macapá.

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Quarta dia de encontro

 Na manhã Thiago Novaes ofereceu uma oficina de edição de áudio com o software livre audacity e juntos todos começaram a edição dos materiais captados e gravados no dia anterior para a programação final.

Após o almoço realizamos uma roda de conversa sobre a formação de uma rede a partir destes encontros. Eduardo, participante de Mojuí dos Campos, desenhou em um cartaz o mapa parcial da Amazônia, destacando os municípios onde o Projeto vai atuar: Macapá, Santarém, Itaituba e Tefé. Foi traçado um barbante vermelho para destacar a abrangência da rede na Amazônia, o que deu visibilidade para o alcance da mesma e, com ela, a importância estratégica de alcançar as diferentes distâncias da região norte.

Durante a conversa, participantes iniciaram espontaneamente uma avaliação geral do projeto, com críticas construtivas, sugestões de melhoria para o próximo encontro e destaque para os pontos positivos.

Assim, todos puderam retornar para a finalização dos mini-transmissores antes de encerrar o dia. Mulheres quilombolas se destacaram na tarefa e logo puderam anunciar serem as primeiras negras quilombolas a construírem mini-transmissores de rádio no Macapá.

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Quinto dia do encontro

O dia de encerramento foi um dia de festa. A inauguração da rádio “Vozes do Quilombo, transmitido na frequência 104,2 FM a partir de um mini-transmissor feito durante o encontro, se deu ao som de muito batuque e marabaixo, ritmos tradicionais dos quilombos locais. O programa foi iniciado após o almoço e reuniu uma diversidade de entrevistados e assuntos com a tônica nas questões raciais e de gênero, já que a grande maioria do grupo foi composto por mulheres negras.

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Para encerrar o encontro, embalados pela gengibirra e a voz dos cantos das mulheres e homens quilombolas (mistura tradicional de cachaça com gengibre) a apresentação do grupo de marabaixo do Quilombo do Maruanum seguido do Batuque, ritmo tradicional do quilombo anfitrião, fez com que todos seguissem rodando, dançando e se espalhando como as ondas rádio, enquanto a música durasse…curiaú-137